Vazio outonal: quais as opções de cobertura para este período? - PET Agronomia
Vazio outonal: quais as opções de cobertura para este período? - PET Agronomia
Data: 7 de maio de 2026

Vazio outonal: quais as opções de cobertura para este período?
Você sabia que, entre o fim do verão e a chegada do inverno, muitas lavouras no Sul do Brasil ficam desprotegidas por até quatro meses? Esse período é chamado de vazio outonal, o qual representa um risco silencioso para a saúde do solo. Muitos produtores após colherem a soja deixam o solo desprovido de cobertura vegetal, um período de 70 a 120 dias, para então iniciarem a semeadura da cultura de inverno (CONAB, 2020). Essa prática, ao expor o solo, representa um risco significativo para a conservação do solo e a ciclagem de nutrientes. Mesmo assim, aproximadamente 50% das áreas agrícolas do Sul do Brasil ainda não utilizam uma cobertura adequada durante o outono (FONTANELLI et al., 2015). Entretanto, isso representa uma oportunidade para avanços no manejo sustentável de sistemas agrícolas.
Nesse sentido, o uso de plantas de cobertura durante o vazio outonal tem se mostrado uma estratégia eficaz para proteger o solo contra a erosão, melhorar suas propriedades físicas e químicas, contribuir com a ciclagem de nutrientes e auxiliar no manejo de plantas daninhas e pragas (Torres et al., 2005; Calonego & Rosolem, 2011). A escolha correta das espécies deve considerar o histórico da área, a cultura que será implantada na sequência e os objetivos do agricultor.
A escolha da melhor planta de cobertura para se usar no outono dependerá da cultura que será cultivada no verão. Por exemplo, em áreas destinadas à soja, o ideal é utilizar gramíneas, como a aveia-preta ou o centeio, que possuem alta produção de biomassa e são mais fáceis de manejar, tanto na dessecação quanto no controle de plantas daninhas de folhas largas (ABREU JÚNIOR; BARTH, 2022). Segundo Balbinot Jr. et al. (2019), essas espécies também propiciam alta produção de biomassa, alta cobertura do solo e assim favorecem a estruturação superficial do solo e a supressão de plantas daninhas e de invasoras (Figura 1).

Figura 1: Aveia preta dessecada em área sob semeadura da soja. Fonte: EMBRAPA (2020).
A aveia-preta apresenta um ciclo de 90 a 120 dias e produção de fitomassa entre 5 e 8 toneladas por hectare. Sua palhada tem relação C/N de 25:1 a 40:1, proporcionando cobertura persistente no solo por cerca de 60 a 90 dias após a dessecação (TORRES et al., 2005; FONTANELI et al., 2009). Isso favorece a proteção contra a erosão e mantém a umidade do solo, além de estimular a atividade microbiológica, que melhora a estrutura do solo e favorece a infiltração da água (CALONEGO & ROSOLEM, 2011; TOMELERO et al., 2018).
O centeio, por sua vez, apresenta ciclo de 100 a 130 dias, com produção de fitomassa entre 6 e 10 toneladas por hectare. Sua palhada possui relação C/N de 30:1 a 50:1, proporcionando uma decomposição lenta e cobertura efetiva por mais de 90 dias (ABREU JÚNIOR; BARTH, 2022). O centeio é uma excelente opção para reduzir o escoamento superficial por meio da formação de uma palhada densa que protege a superfície do solo e favorece a infiltração de água, além de estimular a biomassa microbiana, promovendo melhorias na estrutura do solo (FORNARI, 2023).
Quando o cultivo subsequente for o milho, recomenda-se utilizar nabo forrageiro, ervilhaca ou um consórcio entre eles. O nabo forrageiro possui raízes pivotantes de grande vigor, que promovem a descompactação do solo, auxiliando na melhoria da estrutura e na infiltração de água. Seu ciclo é de 60 a 90 dias, com produção de fitomassa entre 3 e 5 toneladas por hectare. A relação C/N é de 15:1 a 20:1, o que resulta em uma decomposição rápida da palhada, com liberação de nutrientes para as culturas seguintes (CRUSCIOL et al., 2005).
Já a ervilhaca, por ser uma leguminosa de folha larga, contribui significativamente com a fixação biológica de nitrogênio, enriquecendo o sistema com nitrogênio disponível para as culturas seguintes. Apresenta ciclo de 90 a 120 dias e produção de fitomassa de 3 a 6 toneladas por hectare, com relação C/N de 12:1 a 18:1 e rápida decomposição (CRUSCIOL et al., 2005). O uso combinado da ervilhaca, aveia-preta e azevém em consórcio potencializa os benefícios físicos, químicos e biológicos proporcionados ao solo (CRUSCIOL et al., 2005; FONTANELI et al., 2009; BALBINOT JUNIOR et al., 2011). Além disso, por anteceder uma cultura gramínea como o milho, o uso de uma cobertura de folha larga facilita o controle químico das plantas daninhas na dessecação, permitindo o uso de herbicidas seletivos para este grupo, sem risco de fitotoxicidade para a cultura principal (CRUSCIOL et al., 2015; SCHWERTNER et al., 2017).
Outras opções de plantas de cobertura são o trigo-mourisco, o capim sudão e o milheto. O trigo-mourisco promove cobertura rápida do solo e possui ciclo curto, sendo útil para cobertura em janelas estreitas de semeadura. O capim-sudão apresenta rápido crescimento, alta produção de fitomassa e excelente sistema radicular, contribuindo para a descompactação do solo e para a ciclagem de nutrientes. Já o milheto é uma gramínea de ciclo curto com grande produção de biomassa e raiz agressiva, ideal para sistemas com necessidade de cobertura rápida e melhoria da estrutura do solo (VUICIK et al., 2018; ABREU JÚNIOR; BARTH, 2022).
Nos últimos anos, os chamados mix de plantas de cobertura têm se tornado alternativas bastante difundidas no mercado. A combinação de diferentes grupos funcionais (gramíneas, leguminosas e crucíferas) busca otimizar os serviços ecossistêmicos proporcionados. Existem mixes voltados para produção de biomassa, como a aveia, centeio e ervilhaca, outros para descompactação, por exemplo nabo, aveia e ervilhaca, ou então para aporte de nitrogênio temos a ervilhaca, tremoço e feijão-de-porco. A escolha do mix adequado depende dos objetivos do sistema produtivo e das condições locais (VUICIK et al., 2018; SÁ et al., 2008).
Embora tenhamos muitas alternativas descritas acima, há vários desafios para sua adoção na prática. Entre os principais desafios para a adoção de plantas de cobertura no outono estão: as chuvas irregulares, a janela curta de semeadura e a falta de planejamento durante a entressafra (FORNARI, 2023; VUICIK et al., 2018; MENEZES et al., 2012). Para superar esses obstáculos, algumas estratégias são fundamentais:
⦁ Planejar previamente a rotação e consórcio de culturas, conforme a cultura subsequente (MENEZES et al., 2012);
⦁ Escolher espécies adaptadas às condições locais e compatíveis com a cultura principal (FONTANELI et al., 2009);
⦁ Implantar as plantas de cobertura imediatamente após a colheita, evitando o solo descoberto, o chamado “colher/plantar” — ou seja, colher a soja e já semear alguma planta de cobertura; essa semeadura também pode ocorrer em pré-colheita da soja (SÁ et al., 2008).
⦁ Aproveitar oportunidades de pastejo controlado, quando for o caso (FORNARI, 2023).
Portanto, o vazio outonal não deve ser encarado como uma pausa improdutiva no sistema agrícola. Ao contrário, ele representa uma janela estratégica para o uso de plantas de cobertura que agregam benefícios agronômicos, econômicos e ambientais. A escolha da melhor espécie ou consórcio deve levar em conta o sistema de cultivo como um todo, considerando o que foi cultivado anteriormente e o que será semeado na próxima safra. Assim, é possível transformar esse intervalo em um período altamente produtivo em termos de conservação do solo e sustentabilidade do sistema agrícola, pois é nesta hora que temos a oportunidade de intervir de forma mais precisa na melhoria das características físicas, químicas e biológicas do solo. Com isso, cabe aos profissionais do campo e aos produtores reconhecerem esse momento como uma oportunidade para fazer manejo conservacionista com inteligência e visão de longo prazo.
Natália Sornberger Adam
Acadêmica do 5º semestre de Agronomia
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Bolsista grupo PET Agronomia
E-mail: natalia.adam@acad.ufsm.br
Co-autores:
Fábio Joel Kochem Mallmann
Renata Vitória Roveda Willrich
Thiago Platero Cenedese
Luis Eduardo Padilha da Trindade
Referências bibliográficas citadas no texto
ABREU JÚNIOR, C. H.; BARTH, G. (org.). Plantas de cobertura: fundamentos e aplicações práticas. Piracicaba: ESALQ/USP, 2022. Disponível em: https://www.esalq.usp.br/biblioteca/pdf/Livro_Plantas_de_Cobertura_completo.pdf. Acesso em: 9 jun. 2025.
BALBINOT JUNIOR, A. A. et al. Consórcios de espécies de cobertura de solo com aveia-preta e nabo forrageiro. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 35, n. 2, p. 607–616, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcs/a/yDhCVf9qKj7XHFdZPWRqhzJ/. Acesso em: 13 maio 2025.
CALONEGO, J. C.; ROSOLEM, C. A. Impacto de sistemas de manejo e plantas de cobertura na qualidade física do solo. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 35, n. 6, p. 2047–2056, 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcs/a/8fxJW4rRSLhbcjm9zkbYTMy/?lang=pt. Acesso em: 9 jun. 2025.
CONAB. Companhia Nacional de Abastecimento. Acompanhamento da safra de grãos. Brasília: Conab, v. 7, n. 4, 2020. Disponível em: https://www.conab.gov.br/info-agro/safras/serie-historica-das-safras/itemlist/category. Acesso em: 13 maio 2025.
CRUSCIOL, C. A. C. et al. Persistência de palhada e liberação de nutrientes de espécies utilizadas como coberturas de solo em função de épocas de manejo. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 29, n. 3, p. 437–447, 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcs/a/3VVbpPrm3RpF6cXmtDWjDYw/. Acesso em: 13 maio 2025.
EMBRAPA. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Soja em sucessão à aveia-preta e ao trigo pode ter produtividade 54% maior. 2024. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/57138655/soja-em-sucessao-a-aveia-preta-e-ao-trigo-pode-ter-produtividade-54-maior. Acesso em: 19 maio 2025.
FONTANELI, R. S. et al. Plantas de cobertura de solo e manejo da cobertura no sistema plantio direto. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2009. 98 p. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/26571/1/sispro.pdf. Acesso em: 13 maio 2025.
FORNARI, E. Sistemas de semeadura direta com uso de culturas de cobertura na cultura do milho no planalto sul-brasileiro. 2023. Dissertação (Mestrado em Agronomia – Agricultura e Ambiente) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2023. Disponível em: https://repositorio.ufsm.br/handle/1/30828. Acesso em: 20 maio 2025.
MENEZES, L. F. G. et al. Plantas de cobertura na entressafra para melhoria das propriedades físicas do solo. Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental, v. 16, n. 7, p. 735–743, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbeaa/a/8Ft3cQvRwV7YqcfcBjRWjPK/. Acesso em: 9 jun. 2025.
SÁ, J. C. M. et al. Sistema plantio direto no Brasil: fundamentos e perspectivas. Londrina: Instituto Agronômico do Paraná, 2008. 556 p.
SCHWERTNER, D. V. et al. Produtividade de milho em sucessão a culturas de cobertura de solo e doses de nitrogênio. Revista de Ciências Agroveterinárias, v. 16, n. 4, p. 438–445, 2017. Disponível em: https://revistas.udesc.br/index.php/agroveterinaria/article/view/8101. Acesso em: 13 maio 2025.
TOMELERO, C. et al. Influência de sistemas de cultivo e da cobertura do solo na temperatura e umidade do solo no Cerrado. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 42, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcs/a/Gq3rsMgCy5fNwYvCpSVZhfr/?lang=pt. Acesso em: 19 maio 2025.
TORRES, J. L. R. et al. Decomposição e liberação de nutrientes de resíduos de plantas de cobertura do solo. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Viçosa, v. 29, n. 4, p. 609–618, 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcs/a/LNrGb7TJkwxNBcGrHVpLrHS/?lang=pt. Acesso em: 9 jun. 2025.
VUICIK, E. et al. Plantas de cobertura na entressafra das culturas da soja e trigo. Cultivando o Saber, Cascavel: Centro Universitário Assis Gurgacz, v. 11, n. 2, p. 98–108, 2018. Disponível em: https://www.fag.edu.br/upload/revista/cultivando_o_saber/5b97c2e6acb08.pdf. Acesso em: 9 jun. 2025.

