Desafio da Giberela no Trigo: Produtividade x Sustentabilidade - PET Agronomia
Desafio da Giberela no Trigo: Produtividade x Sustentabilidade - PET Agronomia
Data: 14 de agosto de 2026

Pilar da segurança alimentar mundial, o trigo (Triticum aestivum L.) destaca-se pelo expressivo fornecimento de carboidratos e proteínas. Devido à sua alta densidade nutricional, os grãos desta cultura consolidam-se como um recurso indispensável na dieta humana e animal, suprindo demandas em âmbito global (ANTUNES, 2009). No agronegócio brasileiro, essa relevância reflete-se no protagonismo do cereal entre os principais cultivos de inverno. No entanto, a estabilidade e a qualidade dessa produção são frequentemente comprometidas por desafios fitossanitários, dentre os quais as doenças fúngicas de espiga assumem um papel crítico na viabilidade da cultura.
Na safra de 2025, o cultivo de trigo ocupou 3,07 milhões de hectares do território nacional, com produtividade média de 2.636 kg/ha, totalizando 8,10 milhões de toneladas. Embora a Região Sul tenha registrado uma redução de 11,5% na área plantada, os estados do Rio Grande do Sul e do Paraná ainda concentram a maior parcela da produção nacional, somando 2,82 milhões de hectares. Em âmbito regional, a produtividade média na Região Sul situou-se em patamares próximos à média nacional, oscilando conforme o comportamento climático específico de cada região produtora e consolidando o protagonismo dos estados no abastecimento do cereal (CONAB, 2026).
Contudo, a estabilidade dessa produção de trigo é constantemente ameaçada por fitopatógenos, como fungos, bactérias, vírus e nematoides. O local de manifestação dos sintomas abrange diferentes partes da planta e varia conforme o tipo de enfermidade e seus parâmetros epidemiológicos: etiologia (agente causal), incidência (número de plantas/órgãos doentes), severidade (área/volume do tecido sintomático) e nível de dano ocasionado, que quantificam o prejuízo físico e o impacto econômico na rentabilidade (LAU et al., 2020).
Entre as enfermidades mais temidas na triticultura, a giberela (Figura 1), também denominada fusariose, configura-se como uma das doenças fúngicas mais destrutivas. Causada pelo fungo Gibberella zeae (forma assexuada Fusarium graminearum), ela infecta as espigas e reduz expressivamente a produtividade de grãos sob condições epidêmicas de alta umidade (FERREIRA et al., 2024). A magnitude desses danos é severa nas principais regiões produtoras do país. No Rio Grande do Sul, dados históricos compilados pela Embrapa Trigo (2020) apontam que as perdas no rendimento de grãos causadas por surtos da doença podem atingir patamares de até 50%. De forma semelhante, no estado do Paraná, relatórios técnicos de monitoramento do IDR-Paraná (2021) demonstram que em safras marcadas por alta precipitação no período de florescimento, os danos podem resultar em perdas de produtividade superiores a 40%. Adicionalmente, o ataque do patógeno compromete severamente a qualidade dos grãos devido à contaminação por micotoxinas, com destaque para o Desoxinivalenol (DON), um metabólito secundário de toxicidade reconhecida para seres humanos e animais (FERREIRA et al., 2024).

Figura 1: Sintomas característicos da giberela em espiga de trigo.
Fonte: Autora (2025).
O estabelecimento da giberela é altamente dependente de fatores ambientais. Segundo Lima (2004), condições de precipitação pluvial por ao menos 48 horas consecutivas e temperaturas entre 20 e 25 °C criam o ambiente favorável para o desenvolvimento da doença e a contaminação por DON. Por esse motivo, anos sob influência do fenômeno El Niño costumam registrar epidemias severas devido à formação de um microclima ideal para o sucesso do processo infectivo e progresso do ciclo da doença. Se essa condição de umidade constante coincidir com o florescimento, fase de maior suscetibilidade do hospedeiro, o risco de danos aumenta consideravelmente (LIMA, 2004). Estima-se que sob 72 horas de molhamento foliar e temperatura média de 20 °C a infecção possa atingir cerca de 80% das espigas de trigo de determinada área (REIS et al., 2005).
Atualmente, o método de controle da giberela baseia-se primordialmente na aplicação de fungicidas químicos (FERREIRA et al., 2025). No entanto, a eficácia tem sido comprometida pelo uso excessivo, o que favorece o surgimento de novas raças de patógenos resistentes e a falha na redução dos níveis de micotoxinas nos grãos. Diante desse cenário, a busca por alternativas sustentáveis torna-se crucial para mitigar os impactos ocasionados aos ecossistemas agrícolas.
Neste contexto, o uso de agentes de controle biológico surge como uma via promissora e com eficácia comprovada no manejo integrado da giberela. Segundo Palazzini et al. (2007), ensaios de campo demonstram que a aplicação de microrganismos antagonistas atinge níveis substanciais de controle, reduzindo a incidência e a severidade da doença em percentuais que variam de 40% a 60%. Conforme os mesmos autores, além de mitigar os danos visuais nas espigas e proteger o rendimento, a introdução dessas tecnologias sustentáveis apresenta um impacto crítico na segurança alimentar, promovendo a redução expressiva nos níveis de contaminação por micotoxinas, como o Desoxinivalenol (DON).
Esse potencial protetivo é viabilizado pela atuação multifatorial de microrganismos não patogênicos, com destaque para espécies dos gêneros Bacillus e Trichoderma. Conforme descrito por Amorim et al. (2018), o combate ao fitopatógeno inicia-se pela competição por espaço e nutrientes nos sítios de infecção da planta, o que restringe o estabelecimento inicial do fungo. Adicionalmente, esses agentes atuam por antibiose, liberando metabólitos secundários e compostos antimicrobianos que perfuram a membrana e degradam a parede celular do patógeno, provocando o seu rompimento e a morte das hifas. Por fim, a presença desses antagonistas desencadeia a indução de resistência, estimulando os mecanismos naturais de defesa do próprio hospedeiro contra o avanço da infecção. Portanto, investir em tecnologias sustentáveis é o caminho para equilibrar a produtividade com a segurança alimentar e a preservação da saúde ambiental.
Raíssa Salvadori Reckziegel
Acadêmica do 7º semestre de Agronomia
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Bolsista grupo PET Agronomia
Email: raissareckziegel@gmail.com
Coautores:
Fábio Joel Kochem Mallmann
Elisa Franchin Parcianello
Lívia Amaral Koakoski
Referências bibliográficas citadas no texto:
AMORIM, L.; BERGAMIN FILHO, A.; REZENDE, J. A. M. (Eds.). Manual de Fitopatologia: Princípios e Conceitos. 5. ed. Ouro Fino: Agronômica Ceres, 2018. v. 1.
ANTUNES, J. M. Trigo: alimento funcional e nutritivo. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2009. Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/18048471/trigo-alimento-funcional-enutritivo#:~:text=O%20trigo%20%C3%A9%20uma%20das,de%20todas%20as%20calorias. Acesso em: 05 fev. 2026.
CONAB - Companhia Nacional de Abastecimento. Acompanhamento da Safra Brasileira – Safra 2025/26 - Grãos - 4º Levantamento. Brasília, DF: Conab, 2026. E-book. Disponível em: https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/safras/safra-de-graos/boletim-da-safra-de-graos/4o-levantamento-safra-2025-26/e-book_boletim-de-safras-4o-levantamento_2026. Acesso em: 05 fev. 2026.
EMBRAPA TRIGO. Indicações técnicas para a safra de trigo e triticale. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2020.
FERREIRA, A. et al. Eficiência de fungicidas para controle de giberela do trigo: Rede de Ensaios Cooperativos, safra 2023. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2024. 10 p. (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 116). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1166408/1/BPD-116-online.pdf. Acesso em: 21 fev. 2026.
FERREIRA, A. et al. Eficiência de fungicidas para controle de giberela do trigo: Rede de Ensaios Cooperativos, safra 2024. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2025. 12 p. (Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento, 131). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1178077/1/boletim-pesquisa-desenvolvimento-131-Anderson-giberela-v27.pdf. Acesso em: 20 fev. 2026.
IDR-Paraná - Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná. Informativo técnico da cultura do trigo no Paraná. Londrina: IDR-Paraná, 2021
LAU, D. et al. Principais doenças do trigo no sul do Brasil: diagnóstico e manejo. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2020. 44 p. (Comunicado Técnico Online, 375). Disponível em: http://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/handle/doc/1129989. Acesso em: 20 fev. 2026.
LIMA, M. I. P. M. Giberela ou Brusone: orientações para a identificação correta dessas enfermidades em trigo e em cevada. Passo Fundo: Embrapa Trigo, 2004 (Documentos Online, 40). Acesso em: 21 fev. 2026.
PALAZZINI, J. M. et al. Biological control of Fusarium graminearum sensu stricto, causal agent of Fusarium head blight of wheat, using Bacillus subtilis under field conditions. Biocontrol Science and Technology, [s. l.], v. 17, n. 6, p. 627-639, 2007.
REIS, E. M.; CASA, R. T.; FORCELINI, C. A. Doenças do trigo. In: KIMATI, H. et al. (org.). Manual de Fitopatologia: Doenças das plantas cultivadas. 4. ed. São Paulo: Agronômica Ceres, 2005. v. 2, p. 675-687.

